Inversão Térmica: O Impacto de Um Evento Natural Sobre a Poluição do Ar

A inversão térmica é um fenômeno climático com um impacto profundo na qualidade do ar, especialmente em áreas onde essa qualidade já está comprometida. Durante a inversão, uma camada de ar quente sobre uma camada de ar frio cria uma “tampa” que impede a dispersão de poluentes, elevando a concentração de gases e partículas próximas ao solo e intensificando os riscos à saúde pública.

Neste artigo, vamos explorar as causas e consequências da inversão térmica, além de algumas soluções e reflexões sobre a responsabilidade ambiental.

Entendendo a Inversão Térmica

Normalmente, o ar mais quente próximo ao solo tende a subir, permitindo a circulação e a renovação do ar. No entanto, durante uma inversão térmica, uma camada de ar mais frio fica presa perto do solo, enquanto uma camada de ar mais quente se instala acima dela, limitando a movimentação vertical e impedindo a dispersão dos poluentes.

Esse fenômeno é natural e sazonal, mas pode gerar um problema severo em áreas poluídas. O resultado? Uma concentração elevada de compostos como material particulado (MP10 e MP2.5), dióxido de enxofre (SO₂), óxidos de nitrogênio (NOₓ) e compostos orgânicos voláteis (COVs), elementos que apresentam sérios riscos à saúde humana. Veja abaixo um exemplo de um episódio de inversão:

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Impactos Ambientais e na Saúde: Uma Responsabilidade Compartilhada

Entre agosto e setembro de 2024, o Brasil observou inúmeros focos de queimadas que causaram, entre outros danos, a degradação da qualidade do ar. O país registrou 68.635 focos de queimadas em agosto, de acordo com dados do “Programa Queimadas”, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ainda, no início de setembro, entre os dias 1º e 13, foram registrados 53.086 focos de queimadas.

A cidade de São Paulo, durante esse período, registrou, por vários dias consecutivos, índices de qualidade do ar acima dos níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde. Isso pode ser observado na consolidação mensal da CETESB, que informa os dias de ultrapassagem dos respectivos padrões de qualidade do ar em um determinado período.

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Fonte: Relatório da Distribuição da Qualidade do Ar, julho a outubro de 2024, Qualar, CETESB – MP10, O3 e MP2.5
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Reportagem de 11 de setembro de 2024

Uma combinação de fatores contribuiu para essa situação. Geralmente, a poluição associada aos poluentes regulados (PTS, MP10, MP2.5, SO₂, NO₂) está relacionada ao efeito local, ou seja, a poluição ocorre onde as emissões dos poluentes são geradas.

No entanto, em algumas situações, como erupções vulcânicas e queimadas, observa-se um efeito regional, com o impacto da poluição a milhares de quilômetros da fonte emissora.

Parte das emissões geradas pelas queimadas na Amazônia, Pantanal, Cerrado e interior do estado chegaram à cidade de São Paulo, somando-se às próprias emissões locais, principalmente associadas à grande frota veicular. Esse fato, juntamente com o efeito climático da inversão térmica, típico dos períodos de inverno na região, levou a situações críticas, conforme reportado na época.

A imagem abaixo, tirada de um voo em 10 de setembro de 2024, evidencia a inversão térmica. É possível observar claramente a linha entre o ar poluído e o ar limpo.

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Mas e as outras cidades? Não foram afetadas pelas queimadas?

Certamente foram, mas devido à falta de monitoramento da qualidade do ar no Brasil e à ausência de um sistema de tratamento e divulgação dos dados, não foi possível registrar e evidenciar esses efeitos durante o seu acontecimento, como ocorreu em São Paulo.

Esse fato traz algumas observações importantes:

  • A importância do monitoramento ambiental da qualidade do ar e de um sistema automatizado de tratamento dos dados, pois somente assim é possível medir e gerar alertas à população quando necessário.
  • A percepção de que a poluição do ar não é apenas local: grandes emissões podem percorrer milhares de quilômetros e afetar a saúde de milhões de pessoas.
  • A necessidade urgente de resolver a questão das queimadas no país, pois, além dos danos à biodiversidade local, à disponibilidade hídrica e ao clima (devido às grandes emissões de CO₂), há também a degradação da qualidade do ar em diversos locais e o consequente aumento das internações hospitalares.
  • A importância de implementar um controle da poluição industrial e veicular.
  • A necessidade de políticas públicas voltadas para os resultados da qualidade do ar, com acompanhamento e análise contínuos.

Os padrões de qualidade do ar definidos pela legislação brasileira estão em conformidade com as diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde). No entanto, só serão de fato alcançados por meio de uma política pública forte e eficaz, que envolva todas as atividades poluidoras e combata ações criminosas, como as queimadas.

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